segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A Maldição de Cândice Morgan

Muitos acreditam que ela seja dona de tamanha pureza capaz de conquistar a admiração do mais íntegro e poderoso rei.
O diário de Cândice Morgan.
25 de janeiro. Hoje o dia foi agradável, a brisa que soprava em minha pele era a mais tênue possível. O ar puro convidou-me para um passeio pela floresta que beira meu quintal. Aproveitei para banhar-me nas águas doces do belo rio, o local é fabuloso e a relva verde reluzente capaz de momentaneamente mudar a cor de meus olhos. Os pássaros cantando juntamente com a água que dança forma um encantador espetáculo. Recostei-me sobre uma enorme pedra enquanto meus pés ainda tocavam a água, adormeci. De repente fui desperta por um homem, afastei-me. Notando minha insegurança – pois o era desconhecido – apresentou-se tranqüila e delicadamente: - sou o senhor Robert Ryller, perdão se lhe causei má impressão, avistei-a dormindo e preocupei-me por pensar ter ouvido caçadores e, minha senhorita, culpar-me-ia até o último átomo de minha existência se a deixasse solitária e os caçadores a encontrassem, hoje em dia este local não mais é seguro, aconselho que não venha à floresta desacompanhada. Mais calma dialoguei dizendo-lhe sobre minha gratidão e sobre o fato de eu não haver ganhado conhecimento dos perigos desde local, porquanto resido nesta cidade há pouco tempo e não ouvi tampouco li sobre seus riscos. O fato constrangedor ocorreu quando lhe perguntei: - o senhor reside à... Cerca de seis anos. Interrompeu-me com sua resposta já preparada, observando-me de uma maneira a qual me deixou sem graça. Percebendo minha reação, falou-me desajeitada, porém firme: - perdão pela minha indelicada deselegância, temo não ter-lhe causado boa impressão alguma pela minha forma de abordar-lhe e por ter lhe interrompido – solerte exclamou. Oh minha senhorita, sua presença me é agradável ao extremo, porém tenho de ir, receio ter tomado muito de seu precioso tempo. Permita-me perguntar seu nome?... Antes de cumprir com seu compromisso, o Sr. Ryller fez questão de acompanhar-me até minha residência. Com toda a certeza, Robert – se não for ousadia chamá-lo assim – é um cavalheiro. O restante de meu dia foi tranqüilo e curioso quanto aquele homem. Oh, já é tarde e em breve o sono virá assolar-me. Que o Senhor Poderoso abençoe-me. Boa noite!
O diário de Robert Hyller.
25 de janeiro. Acordei como se houvesse um vazio em mim e o mesmo tivesse devorado minha personalidade, apenas me vinham pensamentos vagos. Após o desjejum saí sem rumo e fui-me. Entrei em uma floresta onde a calmaria reinava, era o que eu necessitava naquele momento. Caminhando por entre as árvores vislumbrei uma cachoeira tão pequenina e reluzente, então avistei algo que me hipnotizara doce e bravamente, uma jovem moça, fiquei ali parado contemplando aquela magnífica criatura adormecida. Sua pele clara e suave lembrou-me o toque das mais acariciantes rosas recém colhidas. Quem dera ser eu o sol naquele momento para assim banhar as breves e belas curvas de seu corpo juvenil por sob as vestes ainda úmidas. Seus lábios levemente avermelhados pareciam seduzir-me. Ouvi barulhos – quebrando o encantamento – e pensei na possibilidade de haver caçadores por perto, a idéia não me era agradável visto que soube de um boato – ou real história – de uma criada que ao colher frutos para sua senhora teve o desgosto de encontrar com aqueles maus homens, eles a violentaram. Portanto não hesitei em acordar a moça e explicar-lhe que não era seguro para uma donzela manter-se solitária pela floresta, senti-me entorpecido pela imensurável doçura de tal ser. O resultado foi a minha má forma de portar-me, sendo indelicado e deselegante, me senti um perfeito truão. Para concertar a má impressão que causei amanhã pela manhã a senhorita Morgan receberá algo, estarei ansioso até sua resposta.
O diário de Cândice Morgan.
26 de janeiro, pela manhã. Estou extremamente disposta hoje, o sono restaurou minhas forças e meu ânimo. Acordei com o perfume das rosas que me foram deixadas em meu quarto. Depois de minha higiene desci para o desjejum e encontrei sobre a mesa um lindo ramalhete de copos-de-leite, junto a ele havia um convite e um bilhete manuscrito, ambos para mim. O bilhete dizia:
“Srta. Morgan,
Como pedido de sinceras desculpas convido sua família para unir-se a minha em um jantar de boas vindas.
O dia e horário estão no convite, peço confirmação. Quanto ao local não se preocupe, meu chauffeur os apanhará.
Respeitosamente, Robert Hyller.”
Oh, quanta gentileza! Esperarei até o chá das 17 para expor o acontecido e o gentil convite aos meus pais. Pelo o pouco que vi, Robert é extremamente ponderado e conseqüente. Quanto ao físico: altura mediana, robusto e garboso – possui a postura e presença de um soberano – sua fisionomia demonstra quase precisamente as marcas da idade, aparentando uma década e meia a mais que a mim.
Pela noite. Contei a meus pais sobre o convite e o porquê dele, eles aceitaram de bom grado, porém ficaram desconfiados. Encerrarei meu diário por hoje, tenho de descansar, amanhã meu dia será ocupado com aulas de piano e horas com minha linda e brava égua Fúria.
2 de fevereiro. Acordei assustada por conta de um pesadelo. Havia nele uma criatura indescritivelmente horrenda e uma moça que possuía sórdido horror em seu semblante. Há dias meus relatos são breves, hoje não deixará de ser! Amanhã terei muito a escrever. É hora de arrumar-me para o jantar, até amanhã!
3 de fevereiro. Realmente há muito a contar, começando pelas flores que o chauffeur entregou-me ao buscar-nos. A mansão é esplêndida, a família cortês. O jantar foi maravilhoso, os pais de Robert nos deixaram demasiadamente à vontade, porem em meio aquele ambiente alegre e abençoado por Deus, senti-me estranha, como se um sentimento de pavor levasse meu coração de mim. Sai da sala onde estávamos – após o jantar – meus olhos tornaram-se inexpressíveis e minha pele gélida, fui em direção à janela em busca de ar, vi um vulto passar detrás de mim, desmaiei. Acordei com o calor dos braços de Robert e com o toque de seus lábios nos meus. Declarou-se para mim em desespero como se fosse atingido por um raio de desejo e amor, pediu-me para que o aceitasse como meu homem, meu vassalo. Confesso ter me surpreendido, mas o senti tão vivo e real, parte de mim. Eu, deitada em seus braços, o quis. Logo minha amada mãe foi me procurar, pois havia percebido – todos haviam – que não fora saudável a maneira como me retirei da sala. Viu-me recostada sob os braços de Robert, que me beijava. Por um momento minha mente sentiu sua presença e não somente ela estava ali a observar, o vulto também se fez presente. Voltamos para a sala onde contamos sobre meu mal estar, quanto ao que houve entre Robert e eu ainda é segredo. Minha mãe – embora áspera – sabe esperar. Estou tão cansada que creio ver meu reflexo no espelho, mas a distância e posição não permitiriam o reflexo de minha imagem nele, o sono nos causa visões absurdas! Boa noite, meus amados Deus e Robert!
O diário de Robert Hyller.
2 de fevereiro. Graças a Deus por este abençoado dia! Hoje posso afirmar – mesmo precipitadamente – que sou um homem completo. Sim, sou um homem apaixonado! Confesso que o mundo torna-se irritante com seus inefáveis imprevistos, mas quando eles se referem ao coração, ah, nos modificamos e assim passamos a abençoar esta vida efêmera. Em menos de duas semanas conheço uma moça e repentinamente nos apaixonamos, o fato insólito é o de estarmos firmes em um relacionamento sério – mesmo que em segredo – sendo que nos encontramos apenas três dias, além do primeiro a qual nos conhecemos. Tenho de mencionar o que de estranho aconteceu ou pensei haver visto. O jantar ocorreu perfeitamente, nossos pais mantiveram uma conversa calorosa tornando-nos duas famílias amigas. Enfim, tudo ocorrera bem até o momento em que minha Cândice saíra correndo em prantos silenciosos, não me importei com o que seus pais pensariam – estava eu estarrecido – então fui a sua procura. Deparei-me com ela caída próxima a janela e – inacreditavelmente – um vulto sobre ela. Gritei seu nome e o vulto afastou-se voltando sua fronte para mim, corri para protegê-la e o vulto dissipou-se. Semelhante a um anjo Cândice abriu seus olhos e ali pude perceber a mansidão de meus sentimentos por ela. Expus o que sinto sem medo. Sua mãe chegou e viu-nos, com um tênue sorriso nos conduziu a sala. Ocorreu discreta e normalmente a continuação de nossa reunião, inegavelmente todos haviam percebido nosso envolvimento emocional. Em questão aquele vulto - alego insanidade - mas era real, porquanto sua presença nos acompanhou até o término de nosso encontro familiar.
15 de fevereiro. Tenho passado dias maravilhosos na presença de minha amada, sua família é para comigo adorável e atenciosa. Ontem a visitei e seu pai convidou-me para uma conversa, concordei e para minha surpresa ele ofereceu-me a mão de Cândice em casamento! O que esperar de pais que seguem costumes rigidamente se não esta atitude, apenas não esperava que fosse ocorrer tão rápido! Vê-se em meus olhos o quão gritante é minha felicidade. Creio que minha amada pode estar sendo assolada por algum tipo de moléstia, sua mãe me disse que ela tem dormido mais que o normal – muito mais – sendo que não é de costume, e, quase sempre a pobre tem pesadelos carregados. O que será que a preocupa, causando-lhe estes pesadelos? Outro fato estranho é o de que Cândice não controla seu sono, dormindo em média dezesseis horas por dia e nas outras oito lutando para não adormecer, isso é preocupante. Espero que essa sonolência não traga seqüelas. Após este breve relato irei novamente para a casa de minha agora noiva, Cândice Morgan.
O diário de Cândice Morgan.
20 de fevereiro. Talvez este seja o último relato de minha vida, tentarei ao máximo expor o que vem acontecendo comigo. Quem ler este diário verá o horror que tenho passado, deixo junto a ele duas cartas, uma para meus pais e uma para meu amado Robert. Desde meu mal estar na casa de Robert minha vida foi arrancada de mim. Sei que não está claro, mas farei o possível – até quando me for possível – para que compreenda. Anteriormente em meus relatos escrevi sobre um vulto e sobre senti-lo, infelizmente não era um lapso de minha mente. Em meus sonhos Vince sempre me convidava para seu mundo, com propostas incessantes não desistindo de convencer-me a me entregar. É ele um ser frívolo e com olhos purpúreos de ódio, suas mãos ásperas me prendem sempre quando tento acordar. É ele um ser que me causa repugnância tamanha capaz de criar nele o desejo de me possuir. Não sei o porquê de ser eu a escolhida, mas – em um processo mórbido e progressivo – não há mais como eu descansar, definho a cada noite e não somente à noite, Vince domina-me gradativamente mais. O sono, antigamente me servia como regozijo e paz, hoje é uma prisão. Aquele vulto, aquele ser atormentado me busca em sonhos transformando-os em pesadelos escabrosos, conforme os dias passam o tempo em que consigo ficar desperta diminui e hoje, temo que hoje eu não volte a acordar. O monstro, fantasma, demônio ou o que for ama-me e sabendo que pode prender-me, prende-me. Oh, quanto amor restará em meu coração, meu corpo viverá inerte, porém de minha parte não há salvação para minha alma, eternamente aprisionada.
Trecho da carta para Robert Hyller.
“ ...querido, sei que percebeu minha moléstia - embora eu a tentasse esconder - e a forma como ela apoderou-se de meus dias, saiba que confio em você acima de todos. Meu amado, apareceu em minha vida salvando-me do perigo, quão admirável seu ato! Por sua coragem ganhou minha vida, me fazes o ser feliz que sou, mas faça-me um último favor: salve-me novamente! Confesso que não é um pedido simples, mas se me ama como diz mate meu corpo quando eu não mais acordar, somente assim minha alma será salva. Livre-me do mal que me domina! E assim, matando meu coração por saber que não mais o verei, despeço-me de ti. Sejas muito feliz, de quem mais te amou, Cândice Morgan – Hyller.”

4 comentários:

  1. Marquei como interessante e surpreendente, mas ainda é pouco. Este conto é bem mais que isso. É fantástico!

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  2. Eu estou simplesmente pasmo, espero profundamente saber o desfecho de espetacular história, vou aguardar uma possivel continuação, meu amor tu é simplesmente um máximo, Parabéns como disse o carinha ai de cima este conto é mesmo fantástico!!!

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  3. é fantastico mesmo!
    muito legal
    gostei muito
    =D
    by: luiz

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  4. My
    parabéns, teu conto é muito bom e muito legal, só você mesmo para criar contos assim.

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